Penjing, Eugênia e Lago


Texto e Fotos: Marcelo Duprat

Este trabalho foi desenvolvido a partir de uma muda de Eugenia myriophylla obtida em horto e atualmente com a altura de 30 cm. Devido a dificuldade de encontrar informações sobre esta espécie cabe uma pequena introdução para esclarecer as opções escolhidas no decorrer do processo.

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A planta, da família das mirtáceas, gosta de bastante luz, mas não de sol direto nos horários de maior intensidade. Prefere clima ameno e suporta solo relativamente seco. Têm a característica de ramificar abundantemente em determinado ponto. São bastante apreciadas em topiarias comuns de jardim, para formação de cercas e maciços, pois possibilitam a formação de copas com formas bem desenhadas. De fato, a tendência da espécie em formar copas densas é enorme. Normalmente estas copas são tão cerradas que não deixam a luz do sol entrar em seu interior, o que faz com que as folhas internas sequem muito rapidamente. Para a formação de um penjing ou bonsai isto, entretanto, se mostra problemático, pois as copas tendem a crescer em sua superfície e secar em seu interior, aumentando assim o seu volume constantemente. Esteticamente a ramificação abundante em determinado ponto é também uma característica típica dos arbustos e não das árvores antigas. A espécie, portanto, impõe um esvaziamento constante das copas com a eliminação dos ramos excessivos.

Outra característica importante da espécie é que recebendo sol em seu interior, as eugênias brotam facilmente em tronco de qualquer idade. Entretanto, demora para que o novo broto se harmonize com a espessura do antigo. O engrossamento do tronco e galhos, assim como a fixação de ramos aramados demanda mais tempo do que na maioria das espécies utilizadas para bonsai e penjing.

Todo o trabalho desenvolvido levou em consideração estas características e pode ser resumido como um constante esvaziar da planta, aproveitando, a cada etapa, o mínimo suficiente de ramos que a planta tinha a oferecer para a formação de determinada configuração da copa. Ainda hoje me impressiona a grande quantidade de material retirado a cada poda, por vezes com ramos antigos, sem que isso altere significativamente a configuração geral da copa.

EugeniaPenjing00_Duprat-bonsaimtA primeira intervenção, efetuada em setembro de 2005, foi a alteração do pivô central através de uma mudança de inclinação do tronco. Na primeira foto se podem ver os cinco ramos originais bifurcados na mesma altura do tronco. Três meses depois, após as devidas aramações, a configuração geral da copa já estava bastante adiantada (abaixo).

EugeniaPenjing04_Duprat-bonsaimtEm Janeiro de 2006 a planta me sugeria uma árvore frondosa com parte de sua copa projetada sobre um lago. Como não havia de minha parte pretensão de engrossar mais o tronco preparei o primeiro suiban com o objetivo de desenvolver um Penjing.  Foi feito de cimento branco e modelado a partir de uma fôrma de gesso com a proporção de 45 x 30 cm. Também as pedras, neste primeiro momento, foram totalmente feitas de cimento, devidamente pintadas durante o processo de secagem com pigmentos resistentes a luz solar. Tendo por base os princípios de água e terra, busquei equilibrar os dois volumes dividindo-os com o conjunto das pedras.

EugeniaPenjing05_Duprat-bonsaimtA princípio me pareceu satisfatório, mas esta versão não resistiu por muito tempo. O volume coeso e compacto da copa, ocupando toda a extensão do suiban, configurava uma árvore muito grande para a paisagem. Deveria optar por diminuir a árvore ou aumentar o suiban. Neste momento também se tornaram claros os elementos que deveriam ser harmonizados – planta, terra, pedra, água, ar e porventura um elemento escultórico para favorecer a proporção e clima que se apresentava.

EugeniaPenjing06_Duprat-bonsaimtO segundo suiban, um pouco maior, 57 x 32 cm, foi feito também de cimento branco, mas modelado manualmente. As pedras claras, de tom similar ao do tronco, foram coletadas e somente as junções e assentamentos foram feitos com cimento (pintados como anteriormente, mas imitando a cor e veios das pedras utilizadas).

EugeniaPenjing07_Duprat-bonsaimtO movimento do conjunto foi todo voltado para a área de água. Coloquei uma pedra alta e com tampo chato ao fundo do lado direito. A idéia foi que ao redor do tampo estivesse o volume mais alto de substrato. Criou-se assim uma descida entre este ponto e o volume mais baixo da praia, deliberadamente mais próxima do plano do suiban.

Este volume mais alto de substrato foi contido por um lado pela pedra e por outro pelas raízes mais vigorosas do lado direito da eugênia, criando assim uma espécie de degrau que valoriza e justifica as raízes. Com isso o tronco ficou também um pouco mais enterrado diminuindo visualmente sua proporção. Ao lado uma foto logo após o transplante.

EugeniaPenjing08_Duprat-bonsaimtEste novo elemento, a praia, também daria uma maior liberdade de acomodação das pedras com o torrão de raízes, pois a praia constituía um elo facilmente modelável na hora do transplante. Foi feita com areia misturada com silicone, o mesmo utilizado para assentar as pedras no suiban e isolar a área da água da área do substrato. Ao lado um exemplo de como uma placa bem fina da mistura se mantém com um aspecto natural.

O bode, modelado em arame e durepox, entrou como um elemento escultórico cujo movimento do corpo e do olhar também estão voltados para a área da água. Por sua vez os chifres voltados para trás se harmonizam com os ramos do lado direito da árvore criando assim uma identidade com o conjunto.

EugeniaPenjing0_Duprat-bonsaimtEm janeiro de 2007, mais confiante das características da planta comecei a subdividir a copa em patamares tentando manter sua dinâmica geral. Cabe aqui nos estendermos um pouco mais para que se veja como as eugênias são maravilhosas no quesito de formação das copas. A princípio criei diversas faixas horizontais e logo percebi que havia um vazio que atravessava o conjunto em um ritmo similar ao movimento geral do penjing (aponte sobre a imagem e veja a linha vermelha).

Mas desde o início havia sentido a conveniência de um grande vazio do lado direito da planta, localizado sobre a pedra mais alta. O “vazio” do ar e o da água, cada qual de seu lado, se harmonizaram. Para valorizá-lo optei por retirar um dos ramos principais (aponte sobre a imagem acima e veja a linha azul) que já não estava a contribuir em nada na dinâmica geral da copa. Notem que a retirada deste galho não alterou muito a dinâmica do conjunto pois havia material suficiente no galho de cima para substittui-lo.

Busquei também criar uma dinâmica de vazios nas copas voltados para o vazio sobre a pedra ao invés de acompanhando o movimento do galho em queda.

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Visite o website de Marcelo Duprat
www.marceloduprat.net


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Existem 16 comentários para este post

  1. Victor Hugo disse:

    Muito massa! O cara tá de parabéns

  2. Lucimara disse:

    OI, QUAL A DIFERENÇA DE BONSAI, PEINJING E SUIBAN? ESTOU NO COMEÇO DE PLANTIO DE BONSAI E ESTOU GOSTANDO, O SEU É MARAVILHOSO, ESPERO UM DIA CONSEGUIR FAZER ISSO. OBRIGADA.

  3. ABMT disse:

    É o seguinte, Lucimara:

    Bonsai: Arte de origem chinesa que consiste em criar árvores em vasos/bandeja.
    Penjing: Arte chinesa que consiste em recriar uma paisagem numa bandeja.
    Suiban: Espécie de bandeja utilizada no cultivo de penjing e saikei. Sui = “água” e Ban = “bacia”.

    Se tiver mais dúvidas referente a nomenclaturas, veja essa postagem: http://www.bonsaimt.com.br/o-bonsai/dicionario-do-bonsai/

    Um abraço!

  4. magda disse:

    Sempre tive atraçao por bonsai, agora lendo essas informações, estou com o desejo imenso de ter um. Depois que eu comprar , sabendo assim a espécie posso voltar no site e perguntar como cuidar dele? Existem cursos para ensinar como cuidar um bonsai?
    PS. moro em ponta grossa-pr
    adorei tudo aki no site

  5. ABMT disse:

    Olá Magda!
    Pode contar com a gente sim!

    Recomendamos que, primeiro você leia e só depois compre um bonsai. Dessa forma você poderá comprar um bonsai que melhor se adapte ao local onde você reside e a qual local de sua casa você está planejando o deixar.

    Precisando de ajuda, estomos por aqui!

    E quanto a cursos…
    É dificil dizer algo, pois não conheço sua cidade. Damos cursos aqui em Cuiabá e é provável que alguém também o dê aí em sua cidade.
    O mineiro Rock Júnior estava com um curso sendo ministrado pela internet. Procure pelo site Terra Bonsai e veja como andam as turmas pela internet.

    Um abraço!

  6. Flávio Carrasco disse:

    Uau, muito bom… O penjing eu ainda não conhecia, mas ja havia imaginado a possibilidade disso em meus devaneios sobre possibilidades de bonsai rssssssss ^^… obrigado por compartilharem isso com agente…

  7. Thalmer disse:

    Muito bomm!!! Gostaria de deixar uma idéia para o Marcelo Duprat: Você já pensou em pintar a parte do fundo do lago e a extremidade interna do suiban com uma cor tipo azul piscina, ou um azul esverdeado, para que dê mais realidade à água? Gostaria que você me respondesse, pode ser por e-mail se vc quiser. Um abraço e Parabéns. Ficou maravilhoso!

  8. Maykon disse:

    MARAVILHOSO!!! Mas me bateu uma dúvida, não sei se porque sou iniciante mas… como faria para regar o bonsai se no suiban que você usou não tem furos para escoamento? Dessa forma o bonsai tem vida normal, como em um vaso apropriado? Estou interessado em tentar um penjing mas essas dúvidas estão me tirando o sono… Parabéns pelo seu trabalho!

  9. ABMT disse:

    Tem furos sim Maykon.
    Tem dois furos na área do bonsai, reveja as imagens que você os encontrará. Onde não há furos é a área do lago. A bandeija é dividida em duas partes nesses casos…

    Um abraço.

  10. CUSTODIO disse:

    Olá tudo bem, gostei muito do seu trabalho, gostaria de saber como e qual o material usado para fazer as pedras e ficar tão perfeito, obrigado e parebéns, comecei na arte a um ano e não paro mais.

  11. Ederson disse:

    Vc poderia me passar os detalhas para a construção do suiban, pois não encontro pra compra. Isto faclitaria pois posso produzi-lo de tamanho desejado. E tanbem como construir pedras de cimento. Obrigado

  12. ABMT disse:

    Olá Ederson!
    Você encontrará as respostas que procura em outras três matérias já publicadas em nosso site.

    Suiban – http://www.bonsaimt.com.br/fazendo-um-suiban-para-penjing/
    Pedras de cimento – http://www.bonsaimt.com.br/construindo-pedras-artificiais/
    Concreto celular – http://www.bonsaimt.com.br/concreto-celular/

    Para encontrar outras matérias, procure no sistema de busca de nosso blogsite.
    Um abraço!

  13. Luzaluz disse:

    Ola…. muito lindo…. tenho uma igual so que em tamanho maior um metro mais ou menos……. salvei de morrer…de um jardim em destruicao…..mas parece que agora vai morrer na minha mao….a coitada esta seca….. mas nao morta…vc sabe como faco para salva-la……Obrigado desde ja agradeco………

  14. ABMT disse:

    A eugênia é um tanto é sensível…
    Normalmente ela seca alguns galhos internos devido a ausência de luz do sol.
    Se for esse o caso. Abra mais os galhos através de aramação e tenções, escolhendo os melhores galhos para o trabalho de seu interesse e descartando os demais.

    Um abraço!

  15. Olá, parabéns pelo trabalho, digno de um artista… tenho uma feição especial ao penjing por retratar a Natureza, que amo tanto… tenho um penjing de 5 anos, um pé de romã… o detalhe é que mesmo adubando, regando, enfim, dando muito amor ao meu arbusto, ele não deu flores ainda… pode me orientar onde estou errando?
    Um grande abraço.
    Iliane Fonseca (de Catalão – Goiás)

  16. Tente utilizar uma adubação com NPK + Micronutrientes, de preferência com algum adubo voltado para floração e frutificação.

    Outra coisa é ver o substrato de seu bonsai, se ainda existe boa quantidade ou se já há mais raízes do que substrato. A romã tem um desenvolvimento muito rápido, sendo recomendada uma poda anual em suas raízes.

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